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CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

 

 

ORIGEM

Apelidado de "Kids 'Guernica", o projeto nasce em 1995 na Art Japan, uma organização com sede em Kyoto que cujo intuito era a criação de programas de arte para crianças e jovens.

Iniciado pelo professor Toshifumi Abe em parceria com Yasuda Tadashi ambos pertencentes à Art Japan Network e inspirado na famosa obra “Guernica”, do artista plástico Pablo Picasso, eis que surge o conceito. O condenável bombardeamento à cidade de Guernica, durante a Guerra Civil Espanhola deu origem à criação desta imponente tela, na qual Picasso corporizou através de elementos pictóricos marcantes e uma paleta de cores monocromática, os horrores deste massacre, perpetrado nesta região Basca.

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O professor Abe pede a colaboração de Tom Anderson, um professor de História de Arte norte-americano, para a realização deste projeto de construção de murais da Paz, um projeto que promovesse o intercâmbio entre as crianças e jovens de todo o mundo através de um fio condutor, a promoção da Paz.

O início do projeto dá-se com uma troca de murais entre os Estados Unidos e o Japão, tendo o primeiro sido realizado pelas crianças americanas. O mural foi posteriormente encaminhado para o Japão e as crianças japonesas realizaram então o seu mural, como forma de resposta.

Criou-se então o primeiro mural, com base no tamanho da tela de Guernica (7800mmX3500mm), em Tallahassee na Flórida, em julho de 1995, exposto na Space Gallery e posteriormente enviado para o Japão para o sequente início do seu mural.

Para se promover a evolução do projeto, não fazia sentido que os valores sobre a Paz incidissem apenas nos conflitos nipónico-americanos, assim, vários outros países foram convidados a participar neste projeto, como França, Guiné, Coreia, Nepal, entre outros.

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Acreditou-se, que apesar dos jovens e patrocinadores dos projetos fossem de origens culturais diferentes, as atitudes e preocupações eram universais, nomeadamente, o desejo de viver em paz e segurança, livres da guerra ou da sua ameaça. Acreditou-se também, que sendo a arte um instrumento de Cultura, as crianças e jovens, ainda que de países diferentes, participariam neste projeto e expressariam estas preocupações ainda que, de modos diferentes, mas de acordo com as suas necessidades e critérios.

Assim se marcou a capacidade de observar a esperança, a compreensão, a tolerância e respeito pelo outro, com um objetivo comum, o caminho para a Paz mundial.
Foram desenvolvidos diversos murais, as crianças exploraram e promoveram o conceito de Paz, como cidadãos dos seus países e do mundo e de uma forma local e culturalmente própria.

Para a execução do mural, Tom Anderson reuniu um grupo de trabalho: um diretor artístico, um muralista, quatro especialistas formados em Educação pela Arte e uma equipa de crianças (entre os 9 e os 15 anos) com experiência na pintura de murais, todos pertencentes ao programa FACE (Fourth Avenue Cultural Enrichment). Aproveitou-se o festival Very Special Arts, na Flórida e concretizou-se o mural, com a ajuda de mais 75 a 100 participantes.

Para dar início ao mural promoveu-se um seminário, onde foi apresentada a equipa de trabalho, foram feitas contextualizações sobre a II Guerra Mundial, mais particularmente, sobre o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima. Foram ainda convidados dois oradores japoneses, Maruyma Yasushi, natural de Hiroshima, que explicou às crianças e jovens os efeitos da bomba atómica sobre Hiroshima e Ide Kumiko, natural do Tóquio, que explicou o que é ser-se criança no Japão e em particular, quais as semelhanças entre as crianças americanas e as crianças japonesas.

 

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Discutiram-se temas sobre a paz, a guerra e as suas causas, discutiu-se o que gostavam as crianças de fazer, como utilizavam o seu tempo livre e assim por diante. E foi desta forma cooperativa que o tema para o mural de Tallahassee se começava a definir.

Mas como poderiam as crianças americanas dar-se a conhecer às crianças do Japão? Como poderiam mostrar quem eram ou, o que gostavam de fazer? Decidiram então, enviar presentes simbólicos para as crianças no Japão, para que estas pudessem compreender o que se valorizava na América e quem eram as crianças americanas.

Geraram-se discussões em torno da possível lista de presentes que pudessem descrever o carácter americano, principalmente através de objetos e atividades valorizadas pelas crianças. Renderam-se então aos papéis e decolando e voando pintaram os presentes, representando, entre outros, sinais de paz, frango frito e batatas fritas, batidos de chocolate, skates, cd’s de música rap, gatinhos, bandeiras americanas, equipamentos desportivos, ténis Nike e até um romance de Sweet Valley Twins.

Ideias foram surgindo e até decidiram pintar auto-retratos, que representariam o seu reflexo da Paz. “A Gift of Peace” (Um Presente de Paz), tornou-se o tema e título.

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A execução do mural durou cerca de uma semana. Foi permitido às crianças com necessidades educativas especiais participar de modo a possibilitar a todos a igualdade de acesso na realização do mural.

A tela foi dividida em pequenas parcelas que compunham a borda da composição do mural. Foram representadas então várias imagens simbólicas para enviar ao Japão, incluindo os tais sinais de paz, tambores, gatos, bandeiras americanas, lagartos, flores, entre outros. Os que não conseguiram expressar-se simbolicamente pintaram no espaço que lhes fora atribuído de forma livre. De quando a quando era necessária a intervenção de um adulto para retocar as imagens e para evitar que as pinturas não ultrapassassem as margens.

O processo de construção do mural americano assentou então na participação dos adultos que providenciavam os conteúdos sobre o tema da Paz, assim como o conceito e a estrutura da composição. Por sua vez, as crianças, em cooperação com os adultos, desenvolviam o trabalho em torno do tema e título em específico “A Gift of Peace”.

A abertura da exposição na Space Gallery foi acompanhada de uma festa, com percussão e dança africana, da equipa FACE. Este workshop foi preparado para a celebração da pintura e foi um processo que evocou múltiplas identidades, habilidades e subculturas americanas e a consciencialização de um tema universal “Paz mundial”.

O professor Abe veio do Japão a Tallahassee para poder registar todo este processo, realizado na oficina, para a sua pesquisa. Para além disso, a Art Japan Network contratou uma equipa de vídeo profissional de modo a realizar um documentário sobre o projeto.

Tom Anderson teve também o privilégio de observar parte da oficina do mural da Paz das crianças japonesas. As condições e recursos perto das que foram possíveis em Tallahassee eram abismais. Comparativamente, o seu mural fora executado em condições de “terceiro mundo”. Os espaços de trabalho na Flórida, uma sala de aula e uma galeria sem ar condicionado eram espaços precários comparando com a oficina inserida no museu de Arte Moderna de Tokushima.

O apoio japonês ao projeto foi notável. Para além de ter sido fornecido um ar condicionado de 40x80 metros, estavam ao dispor três membros da equipa do museu, um curador a tempo inteiro e dois assistentes designados exclusivamente para o projeto.

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O espaço inteiro da oficina no Museu de Tokushima foi coberto com uma lona em plástico azul, cujo custo excedia todo o orçamento do mural de Tallahassee.
O museu forneceu a tela que fora profissionalmente cortada e costurada às dimensões exatas, a corporação Sakura forneceu todo o material de pintura para o projeto. No geral, os recursos destinados ao projeto, às Artes e à Cultura no Japão, eram fenomenais.

O processo como foi conduzido o projeto foi também muito diferente, não só em termos da constituição de equipa, como também no modo como as decisões eram tomadas.

O mural das crianças japonesas foi executado de forma extremamente ordenada e pouco ou nada foi deixado ao acaso. As crianças japonesas tiveram uma tendência muito mais cooperativa do que as crianças norte-americanas, pois estas últimas trabalhavam mais isoladamente ou, no máximo, em pares. Contrariamente e embora as crianças japonesas começassem individualmente os seus esboços e ideias, era normal, já durante o processo de pintura final que as crianças trabalhassem nas componentes do mural em conjunto. A única vez que isso aconteceu no processo americano foi na pintura do fundo, tarefa que as crianças americanas reconheceram como uma espécie de necessidade quase incómoda, mas necessária para se chegar mais rapidamente à parte das “coisas reais”, onde podiam representar então as suas expressões individuais.

As crianças conseguiram então de uma forma geral trabalhar neste mural de Paz internacional juntas, aprenderam a trabalhar uns com os outros, em equipa e com a equipa adulta, aprenderam individualmente o que é a cooperação, a diferença e o compromisso, fatores cruciais para as relações individuais, bem como, para a Paz entre as nações.

O professor Tom Anderson concluiu que, no fundo, e sem fazer comparações, todos somos pessoas com impulsos universais comuns, tais como, a lealdade ao grupo, a honestidade, a integridade e a unidade como forma de arte, mesmo que assumam formas diferentes, consoante as diferentes circunstâncias e diferentes culturas.

Talvez seja pretensioso pensar no projeto como uma ponte para a Paz mas, é de certo importante que alguém comece algo em qualquer lugar. (Tom Anderson)

 

 

 

 

 

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